Muito se fala em desenvolvimento pessoal e do quanto importante é dedicar-se e investir na carreira profissional, mas e em relação ao investimento em si mesmo, em relação a ser um ser humano em crescimento e desenvolvimento por quem somos como indivíduos, como esposa, marido, pai ou mãe, filho ou filha, colega de trabalho, amigo e todos os aspetos que fazem de nós quem nós somos.
Talvez não seja discutido suficientemente o desenvolvimento pessoal enquanto pessoa.
Até para terapeutas não é fácil aperceber-se que também possa estar a lidar com conflitos internos. Pode não ser fácil como terapeuta admitir que também precisa de ajuda. Tal como quando se ajuda um amigo aconselhando-o no que deve ou não fazer. Podemos saber aconselhar o outro, mas no que se refere a nós, podemos não aplicar o que também seria um ótimo conselho. Será que somos mais pacientes, atenciosos e curiosos com os outros do que connosco.
Como terapeuta, pode até ser um condicionador numa relação com outros. Porque o outro poderá sentir que está a ser avaliado e estudado e se calhar até tinha razão.
Um psicólogo a trabalhar está também no seu negócio, em representação da sua empresa, de si mesmo. Infelizmente, entrepreneurs e donos de negócios podem negligenciar o seu desenvolvimento pessoal devido ao foco e dedicação de procurar alcançar os objetivos e o sucesso profissional. O desenvolvimento pessoal é colocado um pouco de lado, incluindo o desenvolvimento pessoal de terapeutas.
Do ponto de vista profissional quando não se dá atenção ao desenvolvimento pessoal vai afetar o negócio. Não nos apercebermos do que realmente se passa em nós. Por exemplo um conflito em casa que se procura evitar, sentimentos e pensamento colocados de lado e que se procura não pensar neles. Vai afetar a maneira como se interage com o outro. Podemos ser mais reativos ou impulsivos, podemos ser mais reservados, mais ou menos passivos. O dono e representante da sua marca de negócio se estiver a ter um mau dia, o negócio também terá um mau dia.
Para quem tem o seu negócio e a ele se dedica a tempo a inteiro, é um desafio “arranjar” tempo para si mesmo. Ainda para mais com as tarefas de casa, os filhos e tudo o resto.
Por vezes estamos a dar resposta a tantas coisas que se passam na nossa vida, que ficamos desapontados, inseguros, tristes, desmotivados e consequentemente nos afastando cada vez mais de quem somos.
É importante ter tempo para si.
Reinaldo Diniz
Todos nós carregamos alguma forma de trauma. Muitas vezes episódios descritos como aparentemente insignificantes, que de facto, deixaram ferida emocional afetando-nos mesmo quando há muito nos esquecemos.
Apesar de sabermos que a infância tem importância no desenvolvimento emocional, nem sempre temos a consciência do como e quem somos hoje estar diretamente relacionado com um numero de eventos e situações que experienciamos no passado.
É fundamental estar consciente de que não se pode evitar o trauma na nossa vida, seja na perspetiva de uma criança, na perspetiva do pai cuidador, ou um adulto que carrega as feridas emocionais.
No tratamento do trauma, procura-se criar espaço na mente e no corpo indo ao encontro de sensações, emoções, imagens e pensamentos não processados. Alcançar a percepção consciente para nossas feridas – cuidarmos da dor para que possamos nos sentir integrados e como um todo.
Embora possa parecer inicialmente assustador falar sobre assuntos que nos aproximam da vulnerabilidade, num ambiente seguro, também pode parecer fortalecedor para reduzir o poder que elas têm sobre nós. Sentimentos persistentes de ansiedade, vergonha, impotência ou congelamento que precisam de nossa atenção por forma a poderem ser tranquilizados.
Reinaldo Diniz
Tudo o que fazemos, pensamos e sentimos é registado e codificado no cérebro. A repetição de padrões ao longo do tempo molda e treina o cérebro.
Se tomarmos consciência disso mesmo perceberemos o quanto é importante estar atento ao que se presta atenção e ao que dedicamos tempo e espaço na nossa mente.
As nossas experiências deixam marca. Se estivermos curiosos e fortalecermos a capacidade para parar um pouco e dar atenção ao que se passa internamente, podemos transformar a maneira como experimentamos o que sentimos e as respostas damos.
Ninguém estava preparado para esta pandemia Covid-19. Cada pessoa está a responder a esta situação de acordo com a sua história de vida até ao presente. Seja qual for a experiência, é única e individual. Desde as pessoas que têm de ficar em casa, até aos muitos que lutam todos os dias para que as pessoas possam regressar a casa sãs e salvas.
Todos, incluindo-me, passamos pela experiência de responder de determinada forma a esta enorme mudança nas nossas vidas. Quando em certos casos são experimentados sentimentos de apreensão, insegurança, medo ou outros, podem ser induzidos os níveis de ansiedade, stress, vigilância, insónia e outros. É importante reflectir acerca do que possa estar ao seu alcance fazer para que este período seja mais fácil do que possa estar a ser. Somos um povo sociável, o confinamento e a distância necessária obriga a cada um estar na sua ilha e gradualmente a ilha tende a ficar pequena demais. Muitas vezes, estamos tão ocupados nas nossas vidas que ser forçado a parar desta forma obriga a sentir o quanto somos humanos, não máquinas! Obriga à conexão e à relação. É fundamental manter-se conectado, escutar e ser escutado.
Reinaldo Diniz
A sua ansiedade, a minha ansiedade, todos temos sentimentos de ansiedade. Vai além de simples preocupação e por vezes torna-se muito intensa. Noites em claro, batimento cardíaco acelerado, pensamentos obsessivos levando a acreditar em qualquer cenário negativo que se cria. Muitas vezes podemos sentir que não nos está a tentar expressar coisa nenhuma a não ser incomodar-nos, tirar-nos o sono, e a tirar-nos as coisas que gostaríamos de fazer e nos focar.
Trata-se de uma emoção muito comum e muitas vezes também disfuncional. Absorve muita energia afetando o nosso bem-estar negativamente, não só na relação com os outros, mas também connosco mesmos.
Mas existe alguma motivação para a ansiedade! A ansiedade tem um papel, uma razão para lá estar e uma historia que necessita de ser ouvida internamente.
Naturalmente que quando os níveis de ansiedade estão muito exacerbados torna-se difícil criar espaço e afastar-nos sem que dela façamos parte.
Recorrer a ajuda para lidar com as suas emoções nem sempre é fácil, mas por vezes é um passo importante para alcançar a paz interior, a segurança, e o equilíbrio emocional.
Reinaldo Diniz
Não é comum, como terapeuta, estar a passar pela mesma experiência que meus pacientes em tempo real. Enquanto se trabalha em conjunto para reduzir a propagação da COVID-19, as nossas vidas mudam radicalmente. Para além de afetar seriamente os nossos ritmos diários, priva-nos do contato humano regular que é essencial para nossa saúde mental. É fundamental manter uma saúde mental positiva e manter os cuidados necessários para o bem de todos.
Estamos a lidar com o desconhecido e a incerteza de forma muito intensa. Se refletirmos, sabemos que a vida que conhecemos já é por si só, é repleta de desconhecido e incerteza. A presente situação implica que temos um problema que nos retira o controlo, em que a única maneira de atacar é nos protegermos e protegermos os outros.
Embora haja sérias causas para a preocupação, é importante procurar manter a serenidade adotando uma abordagem de não criar pânico procurando evitar promover o aumento de níveis de ansiedade na população em geral.
Quando nos sentimos inquietos nervosos e ansiosos com tudo o que se está a passar podem surgir sentimentos de depressão, irritabilidade ou impulsividade e afetar quem nos rodeia. Mesmo sem intenção, por vezes podemos “descarregar” nas pessoas mais próximas de nós, as pessoas que mais amamos. Conectarmo-nos com os outros, com pessoas importantes para a nossa vida é tranquilizador e ajuda a reconhecer que não estamos sozinhos.
Não estamos mesmo sozinhos nisto. Esta é realmente uma realidade global em que todos são afetados e que todos devem fazer a coisa certa. Tomar consciência, o que significa permanecer no momento presente e concentrar-se no que é a situação procurando cuidar de si e dos outros.
Reinaldo Diniz
Tudo o que se experiencia ao longo da vida é filtrado através das nossas crenças acerca de nós mesmos.
Traumas graves podem afetar os filhos e netos daqueles que tiveram a experiência em primeira mão. Não apenas alguém pode sofrer trauma, como também pode transmitir os sintomas e comportamentos da sobrevivência ao trauma para os filhos, que podem passar adiante esses sintomas ao longo da linhagem familiar. O indivíduo, mesmo antes de nascer, já recebe uma projeção familiar e já vem ao mundo inserido numa história preexistente da qual ele é herdeiro e também prisioneiro.
Os pais também são filhos, também já foram crianças e tiveram experiência de vida na relação com os pais deles. Absorvemos também as crenças que nos foram transmitidas inconscientemente pelos pais e ancestrais. Aprendemos com os nossos pais, os nossos pais aprenderam com os pais deles, e nós ensinamos aos nossos filhos baseados no que aprendemos, sabemos e sentimos.
O trauma afeta a maneira como os pais são afetados e a paternidade afeta a maneira como a criança sente, pensa e se comporta na idade adulta.
Reinaldo Diniz
Perturbação Alimentar, uma resposta a um conjunto de emoções profundas e difíceis, que precisam de ser compreendidas para que se perceba o papel da PA na vida da pessoa. Com curiosidade e conexão, ajudando o sistema interno, compreendendo-o e, procurar alcançar a transformação interna para que o PA pare de fazer o que faz sem que seja pela força.
Todas as crianças nascem para crescer, desenvolver, viver, amar e expressar as suas necessidades e sentimentos de autoproteção. As crianças precisam do respeito e da proteção dos adultos. Os pais são os guardiões e cuidadores das crianças – cuidam das necessidades emocionais e físicas para garantir que as necessidades da criança sejam atendidas. Nas relações saudáveis entre pais e filhos, os pais dão e os filhos recebem. O papel dos pais é fornecer cuidados e amor incondicional para que as crianças sejam livres para concentrarem a sua energia na aprendizagem e no crescimento feliz.
Por vezes as necessidades da criança são sacrificadas para cuidar das necessidades de um ou de ambos os pais. A chamada Parentificação, pode ser definida como uma inversão de papéis entre pais e filhos. Como resultado, os filhos parentificados são forçados a assumir responsabilidades e comportamentos adultos antes de estarem prontos para fazê-lo.
Parentificação pode ser vista em dois eixos distintos:
Parentificação emocional – ocorre quando uma criança ou adolescente tem o papel de confidente / mediador de (ou entre) pais e / ou membros da família. Uma fonte de constante apoio emocional e cuidado aos pais ou irmãos, como quando se torna confidente ou conselheiro dos pais, que podem compartilhar detalhes íntimos sobre suas preocupações e vidas pessoais, que a criança não está preparada nem desenvolvida emocionalmente para conhecer.
Parentificação física – quando a criança assume tarefas práticas reais de trabalho físico, a fim de ajudar no lar, como limpar, cozinhar, ajudar os irmãos mais novos a estudar, cuidar de outras tarefas e responsabilidades práticas.
Ser parentificado é uma experiência solitária, porque a criança não tem a quem recorrer para obter ajuda e orientação. Desenvolve um senso de obrigação de cuidador, resultando em imensa culpa sempre que deixa de fazê-lo ou tenta atender às suas próprias necessidades. Aprende a internalizar as suas lutas pessoais para se concentrar melhor nas suas muitas responsabilidades, na esperança de que finalmente receba amor. Do sacrifício essencial da infância e do desenvolvimento adequado do cérebro, a parentificação deixa as crianças vulneráveis a uma variedade de problemas, uma vez que crescem em adultos, incluindo depressão, ansiedade, baixa autoestima, impulsividade, raiva, problemas de confiança, perturbações alimentares, sentimentos crônicos de culpa, sensibilidade à rejeição e decepção, dificuldade em formar e manter relacionamentos.
Os pais também são filhos. E todos têm a sua própria história. Uma história única, e que só cada um conhece. Os pais com as melhores intenções podem sobrecarregar os filhos e criar inversões de papéis difíceis de ver na superfície.
A psicoterapia estabelece segurança e espaço para exploração interna, uma experiência repleta de curiosidade, calma, conexão, compaixão, centrada em si e no momento. Reconhecer os desafios que foram impostos pela vida, e entender as várias maneiras pelas quais o passado moldou os comportamentos e emoções do presente. Uma transformação interna ao encontro de si mesmo.
Reinaldo Diniz